sábado, 29 de janeiro de 2011

Por que é que vermelho não é sempre vermelho?

O olho humano pode diferenciar algo entre milhões de tons de cor. Especialistas em pré-impressão e impressão estão a ser confrontados com a tarefa de reproduzir fielmente alguns desses milhões de tons. Seria isso impossível ou uma questão de gerenciamento de cor?

A qualidade de um produto impresso é sempre medida verificando-se quanto da cor desejada pelo cliente é realmente atingida. Na maioria dos casos, o cliente só visualiza uma versão digital ou no máximo recebe uma amostra. Especialistas em pré-impressão e impressão têm a tarefa de transformar perfeitamente essas especificações em realidade. Mas quando se trata de cores, os problemas aparecem nos detalhes. Há factores demais a influenciar o resultado da impressão para que se possa atingir o objetivo corretamente apenas com instruções simples. "Um tom um pouco mais amigável, por favor" ou "um azul mais frio" não ajudam a definir as cores da impressão. No artigo "Color and Quality" da série Expert Guide da Heidelberg, os passos de como se preparar para esse desafio são explicados.

Síntese aditiva das cores: As luzes de diferentes cores sobrepõem-se. A junção de todas as cores resulta no branco.

Acessórios opcionais
Por que um livro vermelho não é sempre vermelho?
A cor não é característica de um objeto como seu peso ou formato específico. A cor tem origem nos nossos cérebros. O objecto absorve ou reflete luz com certos comprimentos de onda. Se um raio de luz atinge um livro vermelho, parte da luz branca é absorvida e o resto é refletido. O comprimento de onda determina qual cor que nós vemos. Logicamente, a luz de iluminação do ambiente tem papel essencial. O livro vermelho apresenta tons diferentes sob a luz de um escritório ou a céu aberto. Síntese subtrativa das cores: Partes da luz branca são removidas. A remoção de todas as cores resulta no preto.

Por que nós percebemos as cores de modo diferente?
Quando o cliente e o impressor olham para o produto impresso, eles podem perceber tons diferentes. Isso porque a cor que nós vemos depende do grau de estímulo dos receptores dos nossos olhos; especificamente os três tipos de cones na retina que reagem a diferentes comprimentos de ondas da luz: para luz vermelha, verde e azul. De acordo com a percepção individual de cores, algumas pessoas vêem o vermelho bordeaux por exemplo, como violeta.
A figura mostra a posição dos eixos a* e b* dos espaço de cor CIELAB na tabela de cor x-y.


Como se pode medir as cores?
Como as cores não são características físicas de um objeto, mas dependentes da percepção visual de cada um, a "Commission Internationale d'Eclairage" (Comissão Internacional de Iluminação) desenvolveu um espaço de cores padronizadas,o CIELab. Esse espaço de cor é baseado em testes com pessoas que percebem as cores normalmente, a fim de criar um sistema de descrição de cores que reflete a sensibilidade dos receptores das três cores no olho humano. Assim, o espaço CIELab é feito de três coordenadas em linha com os cones de cor no olho humano: vermelho, verde e azul, suplementados com uma terceira dimensão, o eixo de luminosidade. Com ajuda dessas coordenadas, a localização da cor e todos os tons que podem ser criados com uma mistura aditiva de cores espectrais podem ser definidos. O especialista de pré-impressão ou impressão sabe onde o seu trabalho impresso está localizado no espaço de cor (valor real), e o quanto ele está longe do valor desejado.

Por que um densitómetro sempre atesta a qualidade das cores?
Um densitômetro determina a densidade da diferença de luminosidade entre a luz absorvida e a luz refletida. Assim, ele diferencia apenas entre claro e escuro e só é aplicável para determinação da densidade do preto. Para que a técnica funcione também para o processo padronizado de cores cião, magenta e amarelo, os densitómetros apresentam filtros de cor para as cores complementares: filtros vermelhos para medir cião, filtros verdes para o magenta e filtros azuis para o amarelo. Uma vez que as densidades se comportam essencialmente como a espessura das camadas de tinta, o impressor pode usar esses valores para iniciar uma mudança de cor. Entretanto, o mesmo valor de densidade não significa que a impressão da cor é a mesma para o visualizador. Devido à diversidade de cores especiais, não há filtros definidos para todas. Nesse caso, deve-se escolher o flitro de cor mais distante da amostra teste - por exemplo, um filtro azul para medir luz verde ou laranja. Neste processo podem ocorrer casos em que valores idênticos de densidade são mostrados por ambas as cores.

Por que o espectrofotómetro garante melhor qualidade de cor?
Um espectrofotómetro separa a luz refletida da amostra em espectros. Por um lado são calculados os valores L*a*b*, e por outro a densidade correspondente e os valores dos tons. Sistemas de medição espectrofotométrica de cor em impressoras também apresentam um propósito a mais. O seu calculador de cores usa a diferença entre o valor desejado (por exemplo, uma prova ou de uma amostra de cor) e o valor real na folha impressa para determinar as modificações necessárias nas zonas de tinta e encaminha para a impressora de forma online. O número de tentativas ou reimpressões necessárias depende inteiramente da diferença entre os valores desejados e os reais. O objetivo dos processos de gerenciamento de cores é atingir em uma primeira tentativa o valor mais próximo possível. Então um único passo é geralmente necessário para alcançar o resultado certo. Para tanto, uma amostra é impressa de acordo com os padrões e medida com o espectrofotômetro. Os valores determinados são usados para criar um perfil de cor ICC. Esse perfil garante que quando recolocado na tela, a cor estará correta e o teste mostra um resultado de impressão confiável.

O objetivo do gerenciamento de cores como um todo é saber com antecedência o que será impresso posteriormente. Isso previne o consumo de tempo, diminui os custos, reduz o desperdício, e assim o livro vermelho será tão vermelho quanto o cliente deseja.

http://www.heidelberg.com/br/www/pt/content/articles/heidelberg_online/edition5/vermelho

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CIE 1931

A colorimetria tornou-se tecnicamente viável quando foram apresentadas as Recommendations offi cielles de la Comission Internationale de l’Eclairage (1931) (Schanda, 1998) determinadas pela sistematização das funções de misturas de cores necessárias para um observador padrão dentro de um campo visual de 2o, em condições específicas de iluminação.
A retina humana possui três tipos de cones, com sensibilidade máxima em diferentes regiões do espectro visível, mas com grande sobreposição entre as faixas espectrais de absorção de luz. As diferentes misturas das três primárias possibilitam a formação de todas as cores possíveis de serem percebidas pelo homem. Dessa forma, as cores podem ser obtidas quando se têm as proporções
adequadas para cada primária. Essa mistura ocorre quando cores-luzes coincidem no espaço e no tempo de modo a serem vistas como uma única cor-luz (Rodrigues, 2003).

O sistema de cores CIE 1931 (XYZ) é conhecido pelo seu diagrama
de cromaticidade . A forma tridimensional do sistema pode ser obtida calculando-se as coordenadas do terceiro eixo (Y), o eixo de luminância, às coordenas dos dois eixos de cromaticidade (x e y).
No diagrama estão representadas não apenas as cores puras ou monocromáticas como, também, as misturas delas para cada coordenada cromática. As coordenadas para as cores puras são representadas no locus espectral, o qual ocupa mais de dois terços da borda do diagrama, correspondendo aos comprimentos de onda entre 380 nm e 780 nm. O branco, por sua vez, está localizado na sua porção mais central (x = 0,33; y = 0,33) e a sua determinação resulta da
combinação dos três comprimentos de onda adoptados como primárias, 700 nm, 546,1 nm e 435,8 nm. Esses valores foram obtidos por Guild (1931, citado por Wright, 1996/1998) em um de seus experimentos e estão bem próximos dos encontrados por Wright (1929) (Wright, 1969/1998; Simões, 2004).
Diagrama de cromaticidade x,y do CIE 1931.
As linhas tracejadas apresentam dados do experimento de Werner e Walraven (1982) citados por Werner (1998) (Backhaus, Kliegl & Werner (Eds.). 1998. Color Vision: Perspectives from different disciplines. Berlin: de Gruyter).

No sistema, X, Y e Z representam cada um dos valores absolutos da
mistura de cores das três primárias necessárias para a equiparação com cada uma das cores espectrais. Os valores de x, y e z representam as coordenadas de cromaticidade e são obtidas pelas fórmulas: x = X/(X+Y+Z), y = Y/(X+Y+Z) e z = Z/(X+Y+Z).

Na representação gráfica do diagrama, as informações são
representadas em x, y e Y. As coordenadas x e y são os coeficientes correspondentes às quantidades relativas de dois das três primárias e a da terceira, z, é obtida por diferença, uma vez que x + y + z = 1, ou seja, z = 1 – x – y. Estas três coordenadas correspondem às proporções de cada uma das três primárias para constituir cada cor espectral. Desta forma, as cores têm informações nas três dimensões, enquanto o branco e o preto estão apenas no eixo Y que representa o nível de luminância expresso em cd/m2 (Kaiser & Boynton, 1996).
O CIE 1931 vem sendo utilizado sem alterações substanciais desde a
sua concepção. Alguns pontos foram interpolados ou aprimorados, seus valores numéricos foram expressos com aproximação de sete dígitos, mas os fundamentos continuam os mesmos (Schanda, 1998).
Há muitas limitações que hoje são mais conhecidas. Uma delas é a situação hipotética de iluminação que não representa as situações quotidianas de percepção das cores. Outra limitação é o facto de não representar fielmente o sistema da visão de cores humana (Kaiser & Boynton, 1996). Como não se tem, ainda, um sistema que reproduza fielmente a percepção de cores humana e sua respectiva
representação, o diagrama de cromaticidade CIE 1931 e suas modificações ainda são muito utilizados em métodos psicofísicos de avaliação da visão de cores.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SISTEMA DE CORES MUNSELL

O Sistema de Cores Munsell foi desenvolvido pelo artista e educador Albert Henry Munsell (1858-1918), tendo sido publicado como um sistema de ordenamento de cores em 1905. Nesse sistema, as cores são arranjadas cilindricamente com as coordenadas descritas a seguir: o eixo vertical representa value (V), uma dimensão associada ao brilho, entre preto (V = 0) e branco (V = 10), para as cores localizadas respectivamente nos extremos – inferior e superior – do eixo vertical. Perpendicularmente ao eixo vertical estão dispostas as outras dimensões representando os outros dois atributos das cores. O ângulo polar e a distância, representam, respectivamente, o hue ou matiz (H) e o chroma (C), dimensão associada à saturação. No caso do matiz, o círculo de cores
do sistema é dividido em 100 partes iguais, identificadas no círculo externo, H variando de 0 a 100. Por exemplo, os matizes vermelhos (R), encontram-se entre 0 ≤ H ≤ 10. A saturação, determinada pelo afastamento em relação
ao eixo vertical, mostra que uma cor, quanto mais distante do eixo vertical, maior é o seu grau de saturação. Quando foi elaborado, esse sistema propunha
que as cores fossem arranjadas de forma que as duas cores vizinhas tivessem a mesma magnitude de diferença percentual. Tal finalidade não foi alcançada pelo sistema, mas sua a eficiência na de cores é comprovada devido ao facto de continuar a ser utilizada por diversas indústrias ao longo de mais de cem anos. As suas especificações também são utilizadas na elaboração de testes psicofísicos para avaliação de deficiências na visão de cores. A versão actual, a Renotation Munsell, é baseada num espaço visual um pouco mais abrangente, contendo 1928 pontos. Essa versão foi aprimorada e adoptada pelo Comitê de Colorimetria da Optical Society of America (Birch, 2001; Brainard, 2003; Indow, 1995).

Sistema de cores Munsell

Na parte superior, o círculo de matizes (hue) (com as 10 notações principais); à direita, a escala de brilho (value); no centro, a escala de saturação (chroma) e, na parte inferior, a representação do sistema em três dimensões (Brainard, 2003) (Shevell (Ed.). 2003. The Science of Color. Oxford: Optical Society of America)(cortesia de Munsell Color Services, uma divisão de GretagMacbeth).

Outros sistemas de cores
Existem vários outros sistemas de cores, sejam de aparência de cores ou de diferenças: o CIE 1931, de que falaremos a seguir, o Swedish Natural Colour System (NCS), o OSA Uniform Color Scale (OSA/UCS), o DIN Color System (DIN), RGB, Gerritsen, MacLeod-Boyton, DKL, CIELAB, CIE Rösch, CIE MacAdam, CIE Walter Stiles, CIE 1976, entre outros (Backhaus, Kliegl, & Werner, 1998; Gerritsen, 1974; Kaiser & Boyton, 1996; Shevell, 2003).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TEORIA DA MISTURA DE CORES

Retrospectiva Histórica
Em meados do século XIX (1853), o matemático polonês Hermann
Gunter Grassmann (1809-1877) publicou uma teoria da mistura de cores que incluía um conceito fundamental para os futuros sistemas a serem concebidos:
a complementaridade das cores, por meio da qual cada ponto em um círculo de cores tem, dentro deste, um complementar (Mollon, 2003). Nesse mesmo período, emergiram os fundamentos básicos para a hipótese de que, uma vez que a luz chega aos olhos, existem três classes de fotorreceptores cones responsáveis pela visão de cores. Essa hipótese foi formulada claramente por Hermann von Helmholtz (1821-1894) e James Clerk Maxwell (1831-1879). Helmholtz, que contribuiu imensamente para a oftalmologia, neurologia e físico-química, foi o introdutor de um conceito
fundamental para os espaços de cores criados no século XX: a demonstração das diferenças nas misturas de cores provenientes de luz (cores-luzes) e de cores provenientes de pigmentos (cores-pigmentos) o que originou a terminologia:
mistura aditiva para as cores-luzes e mistura subtractiva para as cores pigmentos.
Helmholtz também é o precursor dos diagramas de cromaticidade.
O seu espaço de cores foi considerado o primeiro diagrama de cromaticidade e exerceu forte influência na construção do diagrama de cromaticidade CIE 1931. O espaço de Helmholtz diferencia-se dos anteriores também pelo facto de apresentar a gama de púrpuras originada perceptualmente pela combinação das cores situadas nas extremidades do espectro.

Espaço de cores de Hermann von Helmholtz (www.colorsystem.com/)

Maxwell, por sua vez, foi o responsável pelas primeiras curvas empíricas de misturas de cores-luzes. O seu modelo era baseado num sistema prismático com 3 fendas, cujas aberturas podiam ser variadas, utilizando várias combinações de comprimentos de onda para a aquisição do branco e, dessa forma, poder obter as curvas de misturas de cores para a reprodução dos comprimentos de onda do vermelho ao violeta. Baseado nessas curvas, Maxwell criou um diagrama de cromaticidade no qual o locus espectral foi determinado pelas proporções das primárias obtidas por seu método psicofísico. Esse método para estimar a sensibilidade espectral dos fotorreceptores da retina foi reproduzido por Helmholtz e Arthur König (1856-1901). O experimento de König, juntamente
com Dieterici, foi feito com a participação de indivíduos tricromatas,
protanopes e deuteranopes e, a partir desses dados, foram apresentadas as curvas de sensibilidade espectral dos fotorreceptores de um indivíduo tricromata normal: as três curvas de absorção das opsinas dos cones (1886) e a curva de absorção da rodopsina dos bastonetes (1894) (Fisher, 1999; Mollon, 2003).
No fi nal do século XIX, o fisiologista alemão Ewald Hering (1834-
1918) desenvolveu a teoria de oponência das cores contrapondo-se a Helmholtz e Maxwell.

Com a teoria das oponências, Hering propôs que a experiência da
cor resulta da análise, pelo sistema nervoso, das cores em pares opostos. O verde opondo-se ao vermelho. O azul ao amarelo. Assim, explicou o porquê de não sermos capazes de ver “verdes avermelhados” ou “azuis amarelados” e também as pós-imagens negativas que vemos. Mais tarde, adicionou aos canais verde-vermelho e azul-amarelo, o canal branco-preto. A sua teoria de processos oponentes e a teoria tricromática de Young-Newton foram consideradas antagônicas por um longo período. Num de seus ensaios, Hering indica, numa nota de rodapé, a co-existência desses dois modelos, a oponência de cores e a tricromacia, no sistema visual humano (Kaiser & Boyton, 1996).
Em conferência informal realizada no dia 5 de fevereiro de 1969, para o Colour Group of Great Britain, W. David Wright (Kaiser & Boyton, 1996),
acrescentou algumas contribuições das pesquisas realizadas na área de visão de cores que foram essenciais para a concepção de espaços que possibilitassem a utilização padronizada de medições e especificações de estímulos cromáticos em suas diversas aplicações. Dentre essas contribuições estão as citadas nos parágrafos anteriores desenvolvidas por Grassmannn, Helmholtz,
Maxwell, König e Dieterici e, de acordo com Wright, os experimentos, ajustes e deduções das curvas de sensibilidade espectral, realizados nas três primeiras décadas do século XX, pelo físico inglês William Abney, seu colega no Imperial College, e os americanos R. E. Ives e E. A. Weaver.
Todas essas descobertas científicas contribuíram para a consolidação dos conceitos básicos da visão de cores e da representação dos mesmos nos espaços a serem concebidos ao longo do século XX. Esses espaços
tiveram como referência, em sua grande maioria, o Sistema de Cores Munsell, para os sistemas de aparência de cores e o CIE 1931, para os sistemas de diferenças de cores.
Alguns anos mais tarde, com a utilização da microespectrofotometria, George Wald (1906-1997) – Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina (1967) – juntamente com Paul K. Brown, apresentaram as curvas de sensibilidade espectral dos fotoreceptores humanos (Brown & Wald, 1964), simultaneamente a Marks, Dobelle e MacNichol (1964) – em dois artigos da Science. Esses dados impulsionaram diversos cientistas da visão de cores a proporem modificações com a intenção de actualizar os diversos sistemas de cores construídos antes dessa data. Ainda assim, os mais utilizados continuam sendo:

- o Sistema de Cores Munsell e o CIE 1931

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

TEORIA TRICROMÁTICA

Retrospectiva Histórica
Ao longo do século XVIII, principalmente na sua segunda metade, muitos investigadores deram contribuições importantes para esse campo de conhecimento o que permitiu que Thomas Young pudesse sintetizar a teoria tricromática do sistema visual humano e, assim, reflectir nas elaborações dos espaços de cores que teriam por finalidade reproduzir a percepção cromática humana. No ano de 1755, Charles Bonnet (1720-1793) mencionou a existência de ressoadores de luz na retina. Curiosamente, em 1760, Bonnet descreveu um quadro de alucinações de seu pai, que possuía, aos 87 anos, problemas visuais em decorrência, provavelmente, de catarata e que hoje é conhecida
como Síndrome Charles Bonnet. Em 1756, Mikhail Vasilevich Lomonosov sugeriu, como complemento da tricromacia física da luz, a tricromacia fisiológica:
três tipos de partículas presentes na membrana escura do fundo do
olho.
Em 1775, anos depois da morte do matemático e astrónomo alemão Tobias Mayer (1723-1762), Georg Christoph Lichtenberg publicou uma aula na qual Mayer apresentou as três cores-luzes primárias que o olho humano seria capaz de perceber: vermelho, amarelo e azul (Mollon, 2003). No último quarto do século XVIII ocorreram as duas últimas contribuições fundamentais. George Palmer (1740-1795), um especialista na fabricação de vidros coloridos, no ano de 1777, propôs a existência de três tipos de luzes que corresponderiam, respectivamente, a três tipos de partículas, às vezes nomeadas por ele como moléculas ou membranas, na retina. Também em Londres, a menos de um quilómetro de distância, John Elliot (1747-1787),
em 1780, aventou que os órgãos sensoriais humanos, através de ressoadores, poderiam ser activados mecanicamente na presença de estímulos apropriados. Elliot também teve a capacidade de intuir que o sistema visual humano não possuiria ressoadores para todas as frequências existentes (Mollon, 2003). Dessa forma, todos os conceitos fundamentais para a elaboração da teoria tricromática já estavam disponíveis no final do Século XVIII, mas a sua elaboração só foi alcançada em 1801-02 – mesmo ainda não tendo adquirido o nome de tricromacia – por Thomas Young (1773-1829), numa palestra na Royal Society de Londres. Com os conhecimentos adquiridos nas suas pesquisas no campo da acústica, a sua teoria sobre as cores foi ganhando firmeza e apresentou-se de forma sólida, em 1817, num artigo de sua autoria:
Chromatics, elaborado para a Encyclopaedia Britannica. Young concluiu que diferentes comprimentos de onda correspondiam a diferentes matrizes; os mais curtos apresentavam-se em violeta e os mais longos em vermelho. Demonstrou, ainda, com bastante precisão, um mapa de distribuição dos matrizes do espectro visível e, quando convertemos as frações de polegadas para nanómetros, vemos que suas estimativas eram próximas das reais dimensões que hoje conhecemos(Mollon, 2003).
De acordo com Mollon (2003), alguns autores atribuem a Young a
compreensão e descrição do fenómeno da constância de cores, comumente utilizada na língua inglesa como color constancy. Young realmente descreveu esse fenómeno, além de interligá-lo ao contraste simultâneo das cores, mas o primeiro relato de que se tem conhecimento data de 1694, tendo sido feito por Philippe De La Hire (1640-1718), que afirmou o facto de não
percebermos que as cores são diferentes sob a luz do dia ou sob a luz de velas. Ainda de
acordo com Mollon (2003), o artigo mais brilhante a respeito da constância de cores foi feito em 1789, poucas semanas antes da revolução francesa, na Academia Real de Ciências de Paris, por Gaspard Monge (1746-1818). Na sua conferência, vestindo uma malha vermelha, Monge pediu a seus colegas que a observassem através de uma lente vermelha. Surpresos, os presentes tiveram a sensação de que a malha tinha um vermelho esbranquiçado, praticamente branco6. Monge tinha consciência de que essa sensação era mais forte nas cenas com brilho mais intenso e relacionou tal observação a um segundo fenómeno, o das Sombras Coloridas:

Se um ambiente for iluminado pela luz do sol que
passa através de uma cortina vermelha que tem um
buraco, o feixe de luz que passar pelo buraco e cair
sobre um pedaço de papel não irá parecer vermelho
e sim “bastante verde”.


Pouco tempo depois das contribuições de Young e das suas observações a respeito do contraste simultâneo de cores, o químico francês Michel Eugène Chevreul (1786-1889) publicou, aos 53 anos, De la loi du contraste simultané des couleurs (Paris, 1839) que teve sua versão na língua inglesa publicada em 1854. Com essa obra Chevreul estabeleceu, definitivamente, a lei do contraste
simultâneo que havia sido mencionada por Leonardo da Vinci (1452-1519) e, posteriormente, por Johann Wolfgang Goethe (1749-1832). Trabalhando
desde 1824 na fábrica real de tapetes Manufacture Royal Gobelins (Paris)8, Chevreul teve sua primeira observação do fenómeno do contraste simultâneo com os questionamentos do director da fábrica no ano de 1825. O director perguntou a Chevreul por que o preto perdia seu vigor quando em contacto com sombras circundantes em azul ou violeta (Chevreul, 1854/1987).

Círculo cromático de Michel Eugène Chevreul (www.colorsystem.com)

Baseado nos seus estudos de contraste e harmonia de cores, Chevreul criou um sistema de cores, figura anterior, para a fábrica que teve como principal contribuição para os próximos sistemas a serem construídos o facto de respeitar os limites de cada matriz, variando as suas distâncias ao centro do sistema. O seu
sistema tem como base um círculo cromático com 72 matrizes distribuídos radialmente.
Para cada matriz pode haver variação da saturação (eixo x), e variação do brilho (eixo y). Os níveis de saturação e brilho podem ter até 22 variações, que variam de acordo com os limites dos matizes (Chevreul, 1854/1987). Esse sistema influenciou directamente a pintura neo-impressionista de muitos artistas e foi utilizado por mais de 150 anos e só foi reorganizado em 1982, devido à introdução de lãs e linhas
sintéticas no mercado têxtil (Fischer, 1999; Werner, 1998).
Chevreul foi casado com Sophie Davallet, com quem teve um único
fi lho, Henri, e ficou viúvo aos 76 anos de idade. No seu jubileu centenário, em 1886, o governo francês decidiu reeditar sua obra clássica de 1839. O resultado foi um livro de 586 páginas com as 40 paletas de cores em litografia de alta qualidade, que ainda não era viável na época da primeira edição. O seu filho morreu em 27 de Março de 1889. Treze dias depois, em 9 de abril de 1889, Chevreul
também morreu. Aos quase 103 anos de idade (Chevreul, 1854/1987).
Ernst Mach (1886-1959), médico, físico e filósofo, além de ser conhecido pela descoberta da velocidade do som, explicou quantitativamente o contraste simultâneo estudado por Chevreul através de apresentações de cartões em preto e branco de forma independente e justaposta: o branco parecia ser mais brilhante e o preto mais escuro em relação à sensação das mesmas quando apresentadas separadamente. Esse fenômeno é conhecido até
hoje por
Banda de Mach (Mach Band) (Cornsweet, 1970; Kaiser & Boyton, 1996; Backhaus, 1998; Zaidi, 1999).
O mecanismo fisiológico responsável pelo contraste simultâneo é o fenômeno de inibição lateral e foi descrito pelo americano Haldan Keffer Hartline (1903-1983), Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina (1967). A visão humana é baseada na capacidade de ver bordas, distinguir contrastes entre áreas subjacentes.
Se não existissem bordas, não existiria a diferenciação entre os objetos. Hartline demonstrou a inibição lateral em experimentos nos olhos de Limulus, cujos neurónios apresentam dimensões que permitiam registos eletrofisiológicos com maior facilidade. A demonstração foi baseada em registos do efeito de um objecto luminoso sobre o olho do animal em duas situações: em apenas
uma face do olho (omatídeo) e em todo olho. No primeiro caso, o resultado é
equivalente à medição de um fotómetro. No segundo, há uma intensificação da resposta neural na borda, que confirma o fenómeno de inibição lateral.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ESPAÇO E SISTEMAS DE COR

Retrospectiva Histórica
Entre os primeiros registos de espaços de cores, pode-se destacar o trabalho de Pitágoras (cerca 570-500 a.C.), que criou um espaço de cores semicircular relacionando as notas da escala musical de tons e meio tons aos planetas que, por sua vez, eram representados por determinadas cores.

Espaço de Cores de Pitágoras (www.colorsystem.com).

Aristóteles (384-322 a.C.) apresentou seu espaço de cores numa sequência linear, do branco ao preto, compreendendo cinco cores entre elas. Nesse estudo, a luz branca da Lua tinge-se de amarelo, ao longo do dia torna-se laranja e, em seguida, vermelho, violeta, verde e azul, chegando, então, ao preto, que representa a escuridão da noite. Aristóteles foi, provavelmente, o primeiro a investigar a mistura de luzes quando observou a formação do verde numa parede de mármore branco, após a passagem de um feixe de luz branco por dois
fragmentos de vidro nas cores azul e amarelo, respectivament(Fisher, 1999).
O inglês Robert Grosseteste (cerca 1170-1253 d.C.), primeiro Chancellor da Universidade de Oxford, apresentou seu espaço de cores no livro De Colore, de 1230. Neste espaço, o branco (“albedo” ou “lux clara”) e o preto (“nigredo” ou “lux obscura”) estão separados das demais cores, localizados
em dois extremos do mesmo eixo, como a maioria dos espaços de cores utilizados actualmente (Fisher, 1999). De acordo com Gage (2001), a sequência do branco ao preto, que determina uma escala de cinza, foi anteriormente demonstrada por Avicenna (980-1037).
Por volta de 1435, Leon Battista Alberti (1404-1472), no seu livro Della Pintura, apresenta um espaço de cores baseado em duas oponências cromáticas:
verde-vermelho e azul-amarelo. Essas duas oponências cromáticas constituíram, séculos mais tarde, o cerne da teoria de oponência de cores de Ewald Hering (1839) e tiveram as suas bases funcionais comprovadas por métodos electrofisiológicos por (De Valois, Abramov, & Mead, 1967). Alberti, inseriu também, a forma tridimensional da representação dos espaços de cores, embora ainda não fosse baseada em arranjos circulares (Fisher, 1999; Mollon, 2003).
No início do século XVII (1611), o astrónomo finlandês Aron Sigfrid Forsius (também conhecido como Siegfried Aronsen; cerca 1550-1637), um dos precursores desse campo, apresentou um espaço de cores em forma de círculo e, a partir do mesmo, estabeleceu um espaço esférico (Fisher, 1999; Gage, 2001; Parkhurst & Feller, 1982).
Pouco depois, em 1613, o jesuíta belga Franciscus Aguilonius (1567- 1617) incluiu na sua teoria um espaço de cores que foi, provavelmente, o primeiro deles concebido com as três cores-pigmentos primárias: “flavus, rubeus e caeruleus” (amarelo, vermelho e azul). As ilustrações de seu trabalho foram feitas por Paul Rubens que recebeu forte influência desta teoria de cores nas
suas obras (Campenhausen, 2001; Fisher, 1999; Jaeger, 1984).
O médico inglês Francis Glisson (1597-1677) apresentou, em 1677,
um trabalho sólido baseado nas primárias vermelho, amarelo e azul da mistura de cores, numa escala de cinzas composta por 23 etapas entre o branco e o preto. Juntamente com Forsius, Glisson também é considerado um precursor dos sistemas de cores (Fisher, 1999; Gage, 2001; Kuehni & Stanziola, 2002).
Isaac Newton (1642-1727), com o auxílio de um prisma, comprovou
no Experimentum Crucis, que as cores-luzes, nomeadas por ele como “rubeus, aurantius, flavus, viridis, caeruleus, indicus e violaceus” (vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, índigo e violeta), são cores componentes da luz branca.
Em 1704, Newton publicou o seu primeiro livro, Opticks, apresentando o espaço de cores em forma de círculo.
Trata-se do disco de Newton:
A rotação de um disco iluminado com luz branca e pintado com a sequência de cores do espaço de Newton resulta, para o observador, num disco branco. A partir desse momento, todos os outros espaços de cores não mais incluiriam o branco e o preto dentre as cores do espectro visível. No seu espaço de cores, as cores localizadas na borda da circunferência, as quais correspondem às cores do espectro luminoso, sendo essa região então chamada de locus espectral,
estão representadas na sua maior saturação ou pureza do matiz. Conforme se aproximam do centro da circunferência conservam o matiz, mas vão incorporando quantidades crescentes de branco, reduzindo a saturação do matiz.
Apesar da grande maturidade na elaboração deste espaço, Newton incorporou uma analogia com a escala musical e não se preocupou com uma maior elaboração sistemática das cores. No seu espaço não puderam ser representadas as gamas de púrpuras que são compostas pela mistura das cores das duas pontas da refração do prisma, mas Newton deixou por escrito uma referênciaa essa limitação (Mollon, 2003; Paramei, 2004).

Espaço de cores de Isaac Newton (www.colorsystem.com).

domingo, 23 de janeiro de 2011

DEFINIÇÕES

PERCEPÇÃO DE CORES
A luz, ao atravessar os meios ópticos oculares, excita moléculas fotossensíveis
dos fotorreceptores da retina que, por sua vez, iniciam o processo de
codificação da informação presente nos raios luminosos até que após extenso
processamento neural em vários níveis da retina, do tálamo e do córtex cerebral,
ocorre a percepção da cor (Backhaus, 1998).
Para Hering (1874), a percepção visual é formada a partir de seis cores
elementares: verde, vermelho, azul, amarelo, branco e preto. A percepção do
branco é o resultado da combinação particular de cores elementares. O preto é,
de facto, uma percepção de cor, uma vez que a ausência de percepção não tem
significado neural ou psicológico.

ESPAÇO DE CORES
Há diversas definições para espaço de cores na literatura científica
(Backhaus, 1998; Brainard, 2003; Helm, 1964; Indow, 1995; Paramei, 1996;
Shepard & Carroll, 1966). Neste texto, utilizou-se a expressão espaço de cores
em três situações: na representação gráfica das relações entre as cores, o que
inclui os desenhos esquemáticos da Antiguidade; nos espaços de cores obtidos
por experimentos fisiológicos; e nos espaços de cores perceptuais construídos
com os resultados de métodos psicofísicos.

SISTEMA DE CORES
Existem diversos métodos de sistematização do espaço de cores e, de acordo com Brainard (2003), essa sistematização pode ser feita para a especificação da aparência das cores ou da diferença entre as cores, mas ainda não
há um sistema de cores perfeito para nenhuma das duas finalidades. Dentre
os sistemas de aparência de cores, o mais conhecido e utilizado é o Sistema
de Cores de Munsell (Munsell Color System). Grande parte dos sistemas de
diferenças de cores foi desenvolvida a partir daquele criado pela Comission
Internationale de l’Eclairage de 1931 (CIE 1931) (Brainard, 2003
).